terça-feira, fevereiro 28, 2006

Para reflectir

“Eis uma coisa que não se pode dizer de José Mourinho. Ele é o verdadeiro exemplo do ganhador, de alguém que, acima de tudo, está ali para ganhar – sempre, se possível. Ao contrário de Adriaanse, Mourinho estuda os adversários ao detalhe e para cada jogo tem uma estratégia montada, a qual tem o dom de antecipar quase sempre o que o adversário vai fazer em cada situação. É por isso que ele vence tantas vezes: porque é um perfeccionista, um profissional completo, um viciado na vitória.

Mas há um reverso da medalha, como há sempre. Um, é que Mourinho tem dificuldade em saber perder. O outro é que, quando não há fantasistas na equipa, o futebol dele, se bem que continue vencedor, fica como o futebol do Chelsea: terrivelmente previsível e aborrecido, «industrializado», como alguém o definiu há dias. Já aqui escrevi há tempos que tenho a convicção de que o FC Porto de Mourinho venceria tranquilamente o Chelsea de Mourinho.

Esta semana, o Barcelona de Ryjkaard e de Ronaldinho, Deco, Messi e Eto’o, destroçou por completo o futebol científico e sem alma do Chelsea. E só não o esmagou, porque na baliza dos londrinos está um dos três melhores guarda-redes do Mundo. Ainda bem para o futebol, porque o que o Barcelona foi dizer a Stamford Bridge é que o talento, o génio e o improviso ainda são armas determinantes neste jogo.

A sangue-frio José Mourinho tinha obrigação de o ter reconhecido e ter cumprimentado o adversário. Desculpar-se com a expulsão de Del Horno e atacar o árbitro foi uma atitude de mau perdedor. Primeiro, porque o Del Horno foi muito bem expulso, pela simples razão de que, não conseguindo aguentar mais a tourada que o Messi lhe estava a dar, resolveu ver se o arrumava de vez. E, segundo, porque antes e depois da expulsão de Del Horno, a superioridade do Barcelona foi tão flagrante, a qualidade e beleza do seu jogo tão superiores, que qualquer outro desfecho seria uma tremenda injustiça. Resta a Mourinho provar em Camp Nou que o Chelsea é mais do que uma equipa quase vulgar, com um grande treinador.”.


Miguel Sousa Tavares – A Bola, 28 de Fevereiro de 2006

5 comentários:

vieria2000 disse...

Eu tenho uma ideia formada acerca do habitat natural de Mourinho, e esse não é o Chelsea, um clube sem alma, sem mística, sem grande paixão. Tem é um presidente que pensa que o dinheiro compra esses handicaps. Mourinho precisa de desafios constantes, construir algo de novo sobre uma base utopica, como no FC Porto, onde construiu uma equipa quase invencível quando só tinha por base, praticamente, a mísitca do clube. Ele fez crescer o FC Porto; com "trapos" fez alta costura. No Chelsea tudo do bom e do melhor foi-lhe servido de bandeja; não há nada de novo criar, a n ser a obrigatoriedade de ganhar. Se ganha é natural, ninguém o leva aos ombros; se perder sente-se derrotado e n consegue admiti-lo.

Eu se fosse o Mourinho já me sentiria enfadada no Chelsea. Que há de novo para inventar lá? Nada que lhe retribua com o mesmo sumo emocional que no FC Porto.

Um Manchester ou um Real Madrid fazia-lhe melhor...

Bruno Marques disse...

Concordo nalguns pontos, discordo noutros. De facto, parece-me que o Chelsea não é um clube à imagem do Mourinho em muitos aspectos, mas tem algo muito estimulante: precisa de conquistar títulos e aparecer no mapa do futebol europeu. É isso que move o Mourinho. Agora, como tem muito dinheiro para gastar em jogadores, esse facto transforma o trabalho do Mourinho menos visível. No FC Porto ele fez despontar novos valores, quase todos eles desconhecidos do grande público. Como tu dizes, no Chelsea nada de novo há para criar. Mas existe uma coisa que muito motiva o técnico português. Ter muita gente contra ele (principalmente comunicação social inglesa). Por isso, só abandonará o Chelsea quando tiver ganho tudo. Mas realmente ficava melhor noutro clube. Num clube já com pergaminhos no futebol europeu mas adormecido na actualidade. Por exemplo, ficava melhor num Liverpool, num Inter de Milão ou como tu escreves num Manchester ou Real Madrid.

vieria2000 disse...

Sim, o Chelsea de facto tem tudo ganho menos títulos, mas hoje em dia ninguém precisa deles para ser considerado um clube de top desde de que - e voltamos à vaca fria - haja dinheiro. O exemplo flagrante disso é o próprio Chelsea que não ganhou nada internacionalmente mas desde que tem um presidente multi-milionário é mais falado que o FC Porto que venceu quase tudo em dois anos europeus. É óbvio que é uma glória efémera, mas outros clubes já a gozara como a Lazio há tempos, quando inchava de dinheiro dos chorudos patrocinadores italinos, todos ligados à banca.

Mourinho precisa de facto ganhar algo maior no Chelsea antes de deixar o clube. Acho mesmo essa necessidade premente, antes q caia em desgraça... ou então sair para um clube maior e já no final desta época. Penso q a continuar assim desgastará a sua imagem e o fascínio que desde o início exerce sobre a Imprensa mundial acabará por esfumar-se. É que as pessoas só suportam a arrogância dele porque ele é um vencedor. É como em tudo na vida.

Anónimo disse...

Eu realmente não percebo nada do “fantástico” mundo do futebol mas acho uma delícia esses vossos comentários tão entendidos sobre a matéria…

Sara

Nuno disse...

O melhor treinador de sempre.
Fantástico mesmo.
Mourinho 4 ever :)