segunda-feira, dezembro 30, 2013

Porque ele pode!


Final de mais um emocionante jogo da Premier League. O Chelsea, de José Mourinho, acabara de derrotar o Liverpool por 2-1, em Stamford Bridge. Seguiam-se as habituais flash-interview de análise ao encontro e como convidados os jogadores David Luiz e Eden Hazard, do Chelsea. Tudo normal não fosse o treinador português interromper inesperadamente a conversa, monopolizar o microfone, abraçar os dois jogadores e abandonar o local a sorrir.
E Mourinho apenas entrou em cena para num tom de brincadeira acrescentar que David Luiz tinha visto o cartão amarelo, propositadamente, para estar castigado no próximo encontro da Premier League e assim poder viajar para Portugal e aproveitar o final do ano. Nada que certamente não estivesse já previsto, assim como, e apesar da descontracção do momento, não tivesse também um propósito.
Primeiro José Mourinho interrompeu a flash-interview porque ele pode. Atingiu um patamar em que pode fazer tudo o que quiser, dizer o que muito bem lhe apetecer. Em matéria de futebol, e no caso particular dos treinadores, Mourinho está entre a elite, entre aqueles que são considerados os melhores do mundo. Tem prestígio, tem resultados, títulos e não tem mais nada a provar a ninguém.
Depois, o treinador português aproveitou o momento de vitória para descomprimir. Dar uma força extra aos seus jogadores, espalhar o bom ambiente e tornar-se ainda mais próximo do plantel. Com atitudes como esta se ganha um balneário, criando um clima favorável à conquista de mais vitórias. Nem todos se podem dar ao luxo de ser como José Mourinho. Cada um nasce para o que nasce. Tem mais jeito para determinada tarefa ou uma natural propensão para ser bem sucedido numa área concreta. Como uma espécie de chamamento, se preferirem algo tão simples e inato como respirar. Tudo acontece e resulta de forma perfeita. Sem esforço.
Como escreveu um dia Charles Bukovski sobre os escritores, mas que pode também ser aplicado a tantas outras paixões: «[…] quando chegar mesmo a altura, e se foste escolhido, vai acontecer por si só e continuará a acontecer até que tu morras ou morra em ti. Não há outra alternativa. E nunca houve.». Existem os predestinados que estarão sempre num patamar acima dos demais. A esses tudo lhes é permitido. Pela irreverência, pela coragem, pelo corte com o convencional.

Então queres ser um escritor?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.

Charles Bukovski

terça-feira, dezembro 24, 2013

A tradição é...

Um dos anúncios que passava na televisão há uns anos atrás abordava a temática da tradição. Dava alguns exemplos do que era a tradição para terminar a concluir que a tradição já não é o que era. E de facto, espreitando o Natal, a tradição está a diluir-se. Melhor, criam-se novos hábitos que vão matando algumas tradições. Transformando-se noutras. Confusos?

Há não muito tempo atrás, as compras natalícias faziam-se no comércio de proximidade. Na loja do amigo ou familiar bem no final da rua. Com o embrulho cuidadosamente elaborado, o laçarote a condizer, um pouco de fita-cola a segurar e era como se ali estivesse o melhor presente da década. Nos dias que correm os presentes são comprados em centros comerciais apinhados de gente, onde impingem um qualquer produto massificado que colocam dentro de sacos de papel e fecham com agrafos.

No Natal já existiu a tradição das pessoas escreverem umas às outras. Escolhendo postais, pensando em palavras dedicadas única e exclusivamente para determinada pessoa. Escritas com a caligrafia, bonita ou feia, do remetente. Agora criam-se mensagens padrão, aproveitadas de alguém que enviou e adicionam-se destinatários, aos molhos, com o intuito de se desejar um Feliz Natal e um Novo Ano repleto de sucessos. Por outras palavras, por mensagem escrita no telemóvel, por e-mail.

O Natal é a altura de juntar toda a família e trocar presentes ao bater da meia-noite. Mas também isso se vai substituindo, perdendo significado na medida dos anos que avançam. Até pelas pessoas anteriormente presentes e agora apenas em espírito. Os tempos mudam quase sem dar oportunidade de perceber que já não há volta atrás. Não existe uma forma de repetir o que passou. Somente relembrar.

A tradição é o ritual adoptado. Vem dos avós, dos pais e passa divergindo, ganhando novas fórmulas, novas interpretações, novas vivências. Na verdade, a tradição já não é o que era. Crescem novas tradições e o Natal não está a salvo dessa eventualidade. Muito provavelmente as tradições que levamos connosco vão morrendo aos poucos. E nada passa incólume aos anos tatuados no corpo.

terça-feira, dezembro 03, 2013

Para sempre

«Maybe I will never be
All the things that I want to be
But now is not the time to cry
Now's the time to find out why
I think you're the same as me
We see things they'll never see
You and I are gonna live forever»

 

domingo, dezembro 01, 2013

Afinal

Afinal, são poucas as palavras
que nos doem de verdade, e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que nos fazem bater o coração, e menos
ainda as que nos tocam por muito tempo.
Afinal, são pouquíssimas as coisas
que na verdade importam nesta vida:
poder amar alguém e ser amado
e não morrer depois dos nossos filhos.

Amalia Bautista